Pinhal de Leiria: Local de Devastação

Pinhal de Leiria: Local de Devastação

O Pinhal de Leiria vive na memória nacional como um monumento histórico. A obra iniciada por D. Dinis e expandida no Estado Novo vive hoje uma era de deflagrada devastação. Falámos com o Micael Pereira, oriundo de Leiria, estudante no 2º ano de Engenharia Informática na Universidade do Algarve e apreciador local do Pinhal que não deixa de relembrar outros tempos face ao cenário atual. 

Fotografia: Adriano Miranda

Micael, o que te causou a atual paisagem do Pinhal?

M: No dia em que o Pinhal de Leiria começou a arder, a 15 de outubro, o fumo dos vários focos de incêndio rapidamente se espalharam por todo o Distrito de Leiria, escondendo o sol atrás de densas nuvens tóxicas de fumo, durante dias nem um único raio de sol conseguiu penetrar aquele fumo denso, um cenário totalmente apocalíptico. Para onde quer que se olhasse no horizonte apenas se conseguia ver os clarões dos incêndios ainda ativos. No dia seguinte, a caminho do cumprimento das minhas obrigações do dia da Defesa Nacional na Base Aérea de Monte Real conseguia ver o pânico na cara das pessoas em todos os aldeamentos em que passava. O incêndio ainda não estava perto de ser controlado e os bombeiros juntamente com os próprios locais tentavam fazer de tudo para o apagar mas não era  suficiente para combater este Adamastor. Na chegada à Base n.º5, em Monte Real, notei que o fogo também não tinha poupado este local tendo o incêndio local também deixado o seu rasto de devastação. A base ficou disponível para que a população necessitada de refúgio aí se pudesse recolher.

 

Que sentimentos associas a este local?

M: A esta local associo várias memórias de infância, a saudade e o sentimento de perda irreparável do Pinhal. O  Pinhal de Leiria, é mais do que um mero pinhal: é como um livro de recordações. Muitas árvores na Mata Nacional de Leiria guardavam mensagens de amor, outras apenas traços de crianças que ali foram crescendo com a proteção deste Pinhal que era o nosso pulmão. O Pinhal de Leiria tem sem dúvida uma grande conexão com toda a população. Nós, os habitantes ou ex-residentes de Leiria, perdemos uma parte de nós, da nossa história e da nossa identidade.

 

Quais são as memórias mais antigas que tens do Pinhal?

O que fazias quando lá ias?

M: Quando tinha 7 anos,  fazíamos piqueniques ou “buchas”, como os meus avós lhes gostavam de chamar, todas as semanas- Era como uma tradição, acabava por ser o nosso pequeno santuário O próprio ar ali sempre foi diferente, não sei como mas parecia mais leve, um sítio sem preocupações onde podíamos relaxar e passar tempo em família. Na Primavera tínhamos a sorte de por vezes conseguir avistar texugos, raposas, felosas, lontras, etc que constituíam uma grande variedade de fauna para além da flora que apesar do predominante pinheiro bravo se via na diversidade de plantas tal como o rosmaninho e a urze que os locais usavam pelas suas propriedades curativas ou gastronómicas. No Verão havia sempre uma corrida às camarinhas (bagas), às quais é associada uma lenda das lágrimas da Rainha Santa Isabel, mulher do rei D. Dinis I. Esta baga, desconhecida por muitas pessoas, tem um sabor único adocicado tornando-a numa baga apetecível, apenas disponível no Verão.

O que achas, o desastre causado pelos incêndios poderia ter sido prevenido?Se sim, de que maneira é que achas que poderia (e/ou deveria) ter sido feito?

M: O desastre causado pelos incêndios poderia ter sido prevenido primeiramente porque os trabalhos básicos de renovação e replantação deixaram de ser feitos. Houve um enorme desvio de recursos investidos nestes trabalhos dado que o número de guardas florestais tem vindo a decrescer, e não existe pessoal para a manutenção e vigilância efetiva de uma área deste tamanho. Os hectares eram os mesmos mas com cada vez menos efetivos facilitando assim o ato de mão criminosa. A limpeza das matas é inexistente, o abandono e degradação deste património é observável até no facto de não existir nenhuma estrada que não esteja esburacada ou intransitável. Sempre existiu um pobre ordenamento do território e política florestal sendo que as árvores novas que iriam substituir as mais velhas acabavam sempre por ser cortadas para alimentar a indústria. Existe uma necessidade de maior respeito pela floresta.

 

O que pensas das atuais medidas de recuperação do Pinhal?

M: O ordenamento e reflorestação do Pinhal de Leiria com árvores mais resistentes ao fogo, como os abetos e carvalhos e não invasores como os eucaliptos é uma excelente medida para a recuperação do Pinhal. Poderá ser bom para a sua recuperação mas não manutenção como alguns estudos feitos por universitários prevêem:  a recuperação irá demorar cerca de 150 anos, no caso de haver manutenção constante porque incêndios como este apesar de em menor escala já aconteceram e poderão acontecer. O que mais me surpreendeu, não foi o apoio do Estado que foi ineficaz e insuficiente, mas sim das pessoas, a redistribuição de riqueza, o número de casos de solidariedade que foram espantosos, até diria históricos. A onda de solidariedade que se gerou a nível nacional foi digna de orgulho e de ser português. Inclusive os portugueses espalhados pelo mundo quiseram contribuir para minorar o sentimento de perda de alguém que perdeu tudo no fogo.

Muito obrigada pela tua partilha, Micael.

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